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Como se faz a curadoria de uma exposição

Amigos, vocês já repararam como algumas exposições de arte ficam mais marcadas na nossa memória que outras? Isso acontece devido a uma série de fatores, claro, desde nossa preferência estética e identificação com a história do artista até o trabalho fundamental da curadoria e da ambientação das peças. Eu fui conversar com meu amigo Eder Chiodetto (que eu já entrevistei aqui, lembram?), curador de mostras como “Fotopinturas: Coleção Titus Riedl”, cuja foto abre esse post, para entender melhor como isso funciona.

“Diversas etapas precedem a montagem de uma exposição: a definição das linhas de força do acervo, o recorte, a seleção de obras, a construção das vizinhanças, a intensa discussão com o arquiteto sobre a concepção da museografia, o teste dos croquis de montagem no computador, a escritura do texto, a definição da cor das paredes, da luz, da comunicação visual, etc. Cada um destes itens deve auxiliar na criação da atmosfera que irá, se tudo der certo, atuar fortemente na percepção dos trabalhos, direcionando para as questões conceituais tabuladas pela curadoria em comunhão com os artistas.

Elaborar o projeto de uma montagem é imaginar a construção de um mundo paralelo. É como antever uma paisagem que irá receber o visitante, tirando-o do seu universo cotidiano para levá-lo a outra dimensão. É preciso construir uma zona de conforto – ou de desconforto, se for o caso – particular para sequestrar as pessoas da velocidade de processamento de dados atual, da necessidade de decifrar tudo rapidamente em um golpe de olhar”, disse.

Ele até usou uma imagem bem didática para explicar essa curadoria: “Quando começamos a pensar as vizinhanças das obras, é como se cada uma delas fosse uma palavra que se encontrava embaralhada entre outras no acervo e que, a partir do conceito estabelecido para a mostra, algumas de suas potencialidades ganham maior relevância e sentido. Ao ordenar estas obras/palavras, temos possibilidades de escrever algumas frases. É importante pensar, então, qual será o sujeito, o predicado, o verbo, etc, de cada frase. As escalas maiores ou menores dos trabalhos, assim como a potência de cada um, suscitam palavras em caixa alta e baixa, sublinhadas ou não. E há os espaçamentos entre elas, que devem variar dentro de uma lógica de aproximações e isolamentos. Respiros mais longos ou menos compassados. E assim esta ‘escrita’ vai ganhando ritmo, pulsação e gerando novas relações simbólicas”.

A importância desse trabalho de curadoria é que ele direciona o olhar das pessoas. Reparem como sempre que a gente vê duas ou mais obras em sequência em uma parede já começa a traçar relações entre elas. E isso é responsabilidade do curador. “Às vezes, ao reunir duas obras potentes, pode ocorrer de ambas perderem energia e impacto por conta desta vizinhança que não lhes é favorável. Outras vezes, ambas se nutrem uma da outra e passam a vibrar de forma mais intensa. São muitos os elementos internos de uma fotografia que conduzem às soluções de edição e sequenciamento. E, por mais que no campo da razão e da solução formal existam parâmetros pelos quais podemos nos guiar nesta empreitada, como pontos coincidentes ou divergentes na composição, na luz, no tema, na atmosfera etc, grande parte da aventura da edição se dá por questões sensoriais e subjetivas”, conclui Eder.

Eu fiquei surpresa, amigos, porque não imaginava que fosse algo tão complicado. E vocês? Faziam ideia?

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Por: Silvana Tinelli

Nascida no Egito, mas com o coração dividido entre a Itália e o Brasil, Silvana Tinelli faz de tudo um pouco. Em sua rotina dinâmica, Silvana se divide entre suas paixões: a arte, a criação de suas cerâmicas, as viagens - com segredos que só ela conhece - os eventos com seus amigos, a fotografia e a gastronomia.